Mas, com o passar do tempo, houve uma inversão de papéis. Thiago Neves entrou em forma muito rápido e passou a brilhar, entregando-se totalmente ao time, correndo muito e marcando muitos gols. Até o pênalti perdido contra o Fluminense nas semifinais da Taça Rio foi perdoado e esquecido, logo substituído pelos elogios ao pênalti convertido contra o Vasco na final da mesma taça, que garantiu a conquista do Campeonato Carioca por antecedência e, ainda por cima, invicto. Ronaldinho Gaúcho, por sua vez, estava "deixando a desejar", de acordo com a opinião geral. E ninguém parecia mais lembrar do gol de falta marcado contra o Boavista, que garantiu a Taça Guanabara, sem a qual não poderia haver Campeonato Carioca por antecedência. A torcida, a imprensa, todos começaram a criticar os supostos desempenhos ruins de R10, culpando sua falta de entrega ao time. Tudo pareceu culminar na ausência de Ronaldinho Gaúcho na lista dos convocados para os amistosos da Seleção Brasileira nos dias 4 e 7 de junho (e na presença de Thiago Neves nessa mesma lista), da qual deve sair a escalação final para a Copa América, a ser disputada durante o mês de julho na Argentina (a única mudança que parece plausível é a convocação de Ganso para a Copa América).
O momento de redenção de Ronaldinho Gaúcho, contudo, parece ter chegado. Após partida brilhante contra o Avaí no sábado, em que marcou um gol, participou dos outros três e ainda deu passes para outras chances claras, com direito a canetas e o velho truque "olhos para um lado, bola para o outro" de R10, todos já veem aí o ressurgimento do antigo craque, já apontam o Flamengo como favorito ao título e já pedem Seleção para Ronaldinho. Esperançosos. Deslumbrados.
Mas agora vamos com calma e vamos por partes, porque, enquanto para a mídia é 8 ou 80, eu prefiro ficar ali nos 44, e, entre céu e mar, há sempre a terra e o pé no chão. Lembro muito bem que, um pouco antes de Ronaldinho Gaúcho manifestar interesse de retornar ao Brasil, todas as emissoras esportivas de televisão (e eu digo TODAS sem medo de ser feliz) se ocupavam em mostrar lances do jogador no Milan, dribles como lambretas, canetas e chapéus. Se os dribles eram efetivos ou não e se a participação de R10 nos jogos era conclusiva, não vinha ao caso. Apenas soltavam o replay dos lances e condenavam Mano Menezes por não convocar Ronaldinho para a Seleção. No único amistoso do jogador para a Amarelinha de Mano, foi uma algazarra, uma confusão. Um milhão de elogios, comentários, deslumbramentos, oba-obas. A cobertura da negociação de Ronaldinho com os clubes brasileiros foi feita em tempo real, realíssimo. Era plantão de notícias 24 horas por dia. E quando finalmente veio a notícia de que o jogador tinha acertado com o Flamengo, foi um tumulto. "Ninguém espera que ele vá jogar no nível do Barcelona, quando foi eleito melhor jogador do mundo", todos diziam, mas, no fundo, era isso mesmo que esperavam. E, durante todo este processo, eu fiquei na minha, aguardando o maior dos desastres, um fracasso colossal, uma decepção monumental. Thiago Neves era meu consolo.
Aí os jogos do Carioca começaram, Ronaldinho estreou e eu, que temia o pior, tive uma grata surpresa. Pois me deparei com um jogador, apesar de toda a fama, comprometido com o clube, que não falta um treinamento, que demonstra alegria em fazer parte do grupo, que faz questão de comemorar os seus gols com os companheiros, que comemora os gols dos companheiros como se fossem seus, que dá força e deposita confiança em cada um deles. Entre as quatro linhas e nos 90 minutos em que a bola rola (que acaba sendo tudo o que interessa), vi um jogador sério, batalhador, que perde uma bola e faz de tudo para recuperá-la, que corre o tempo todo, sem firulas, que não é fominha e prefere rolar a bola para um companheiro fazer o gol e garantir a vitória do time do que a segurar para ficar com a fama, mas perder o gol. Vi um jogador que arrumou o meio-campo rubro-negro e que, quando colocado no ataque (posição que não é sua especialidade), fez o sacrifício, se adaptou e marcou diversas vezes. Vi um jogador inteligente, que sabe atrair a marcação e que faz um par perfeito com Thiago Neves, trocando de posição com o mesmo e o deixando na cara do gol muitas vezes, bem como a diversos outros jogadores. É lógico que vi ainda muito espaço para melhora, tanto técnica, quanto física. Mas vi também já um bom desempenho, acima da média. Não foi o que a imprensa viu. Porque como eles, no fundo, esperavam e contavam sim com o Ronaldinho eleito melhor jogador do mundo pelo Barcelona (o que eu sabia ser impossível desde o início), tudo o que enxergaram foi o desastre que eu havia antecipado (e, no entanto, não vi). De repente, o jogador que tanto enalteciam, que faziam questão de colocar num pedestal, passou a ser condenado por sua "falta de entrega", por suas "péssimas atuações, abaixo da crítica", por "não valer o investimento". Todo o espaço foi dado para os comentários de Zagallo, que fez questão de descartá-lo sem hesitação da Seleção Brasileira numa entrevista em que estava sentado ao lado de Mano Menezes. E a mídia de repente decidiu que Ronaldinho não era bom o bastante para a Seleção, que não merecia, que pouco tinha feito em Copas anteriores (fato com o qual concordo 100%, mas atentemos para essa postura esquizofrênica).
A nova inversão total veio no sábado, com a vitória de 4x0 do Flamengo sobre o Avaí. Tudo bem que este entrou em campo com um time misto, pensando na Copa do Brasil, e que o esquema com três zagueiros no primeiro tempo não favoreceu (com o meio-campo prejudicado, o time errava muitos passes, devolvendo a bola de graça para o Flamengo e permitindo seu controle e sua posse de bola. Além disso, deixava os meio-campistas rubro-negros, incluindo aí R10, muito livres). Apesar da mudança tática para o segundo tempo, com a marcação mais avançada, os jogadores não corresponderam em campo, erraram muito e permitiram que o Flamengo mantivesse seu domínio, acabando por sofrer uma goleada, que só não foi maior porque o Flamengo também errou muitos passes de definição e pecou em algumas finalizações. Tudo isso posto, a atuação de Ronaldinho Gaúcho foi, de fato, brilhante. O desempenho do time como um todo foi excepcional (já havia sido contra o Ceará, incluindo aí R10, mas como a equipe acabou sendo eliminada da Copa do Brasil naquela partida, todos os méritos coletivos e individuais foram, até certo ponto, deixados de lado). Foi Ronaldinho Gaúcho quem deu o passe para Galhardo, que cruzou para Bottinelli marcar o primeiro gol. Foi Ronaldinho Gaúcho quem deu aquela arrancada fantástica e acertou um belo chute para fazer o segundo. Foi Ronaldinho Gaúcho quem deu o passe para Thiago Neves tabelar com Wanderley e marcar o terceiro. Foi Ronaldinho Gaúcho quem tabelou com Diego Maurício, que fez o quarto. Foi Ronaldinho Gaúcho quem deu aquela caneta e aquele drible. Uma ótima atuação, sem dúvida. Mas aí a imprensa já vê o R10 da época de Barcelona, já vê esperança no retorno do craque, já vê o ressurgimento do "bom futebol brasileiro" (engraçado, achava que o nosso futebol continuava sendo o mais vitorioso do mundo, mas tudo bem), já vê Ronaldinho na Seleção, e que injustiça ele não ter sido convocado, já vê o Flamengo com a mão no título brasileiro...
O que eu vejo é um jogador acima da média que vem tendo boas atuações, mantendo certa regularidade, e que fez duas últimas atuações excepcionais, de altíssimo nível. Eu vejo um jogador que tem chances de chegar à Seleção por mérito próprio, se continuar trabalhando sério e mantendo o nível de evolução técnica e de volume de jogo. Eu vejo um jogador que faz parte de uma equipe que tem chances de conquistar o Brasileirão. Vejo chances. E possibilidades. E um Ronaldinho que vem melhorando, mas nem por isso vai jogar o que jogou no Barcelona. E um Ronaldinho que, se tiver uma má atuação, nem por isso deve ser chamado de perna de pau. Vejo a realidade de um jogador, de um time, de uma Seleção. Agora, o que a mídia vê e desvê e revê, isso aí eu já não sei... Alguém pode me explicar?
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